Sunadokei - (Edição Panini)

 


Sinopse: Publicada entre 2003 e 2006 na revista Betsucomi da editora Shogakukan, Sunadokei (traduzido para o português como Ampulheta) é um shoujo composto por 10 volumes, que foi licenciado no Brasil pela Panini, tendo sua publicação concluída com o título de Sunadokei – O Relógio de Areia. Contudo, é um pouco complicado encontrar todos os volumes da Panini disponíveis para compra, e por isso não consegui ler a série completa para esta análise. Todavia, os 6 volumes que consegui ler já fornecem uma base sólida para avaliar certos aspectos da obra. Portanto, vamos começar.

Ann Uekusa, aos 26 anos, está organizando suas coisas para o casamento que se aproxima. De repente, ela descobre entre seus "tesouros" uma antiga ampulheta. Este objeto provoca uma viagem em sua memória (e na nossa como leitores) de volta a 14 anos atrás, durante o inverno em que Ann tinha 12 anos, dando início à narrativa do mangá.



Naquele período, após o divórcio de seus pais, Ann e sua mãe se mudam de Tóquio para Shimane, uma pequena cidade do interior onde reside a avó materna de Ann. Nesse novo local, ela enfrentará diversas situações e acontecimentos que irão moldar sua vida e personalidade, incluindo amizades, perdas e a descoberta do amor.

Além de Ann, o enredo foca em três outros personagens de sua idade: Daigo, um jovem que é simples e direto, mas também gentil; Shiika, um ano mais nova e filha de uma família rica, que é prestativa e popular entre os meninos; e Fuji, o irmão mais velho de Shiika, que é o mais introspectivo e reservado do grupo.

Como um shoujo, Sunadokei apresenta várias características típicas desse gênero. Elementos caricatos são predominantes na maior parte do tempo (com momentos sérios em quadros específicos), brilhos e luzes "mágicas" ao fundo em diversas cenas, layouts únicos de quadros na página e muitos pensamentos dispersos ao longo da história… Enfim, não desejo aprofundar-me nas escolhas estéticas aqui, mas pelas poucas obras que conheço desse gênero, noto que tais elementos muitas vezes são empregados meramente para apelo visual e não como recursos que facilitam o desenvolvimento da trama. Kimi ni Todoke, por exemplo, falha ao exagerar nos pensamentos que pouco contribuem para o avanço da história.



Entretanto, de maneira distinta, Sunadokei utiliza essa estética de forma eficaz e se revela uma agradável surpresa para quem não está acostumado com outras obras desse gênero. A autora Hinako Ashihara demonstra ter uma clara compreensão do roteiro que pretende desenvolver e utiliza um ritmo de narrativa excelente para nos conduzir até o ponto que idealizou desde o início da obra. Por isso, deixe de lado as 12 páginas em que uma personagem se perde em seus pensamentos tentando entender seus sentimentos; ignore a página brilhante com pouco conteúdo relevante; com o avanço ágil da história, somos poupados dos longos dramas e detalhes insignificantes, permitindo que o foco permaneça nas informações que realmente fazem a trama progredir. 

Isso é bastante intrigante, especialmente se tivermos em mente a conexão profunda dos personagens com a noção de tempo, habilmente simbolizada pela ampulheta que dá título ao mangá. Sunadokei narra várias histórias e enredos simultaneamente, todos interligados pelo laço entre os personagens. Eventos que desejamos reviver, escolhas que gostaríamos de corrigir, instantes que queríamos que se prolongassem indefinidamente; todas essas ideias tão pessoais e universais do ser humano estão presentes na narrativa do mangá. E, infelizmente, assim como acontece na realidade, o tempo nunca para, e o mundo continua a se mover, ignorando os anseios dos personagens.



Possivelmente, o grande trunfo de Sunadokei reside na habilidade de transpor para o papel situações tão familiares na vida de cada um. Mesmo que você não tenha experienciado exatamente a mesma situação que os personagens, é provável que muitos já tenham enfrentado a perda de alguém especial, a mágica vivência do primeiro amor e as desilusões e complicações amorosas que surgem posteriormente. E, apesar de discordar da perspectiva da autora que considera o primeiro amor como "o verdadeiro grande amor", admiro a maneira como ela aborda todos os principais desafios de um relacionamento, especialmente entre dois jovens inocentes que erroneamente acreditam que nunca poderão amar alguém com a mesma intensidade que amaram no primeiro amor.

A narrativa se desenrola de maneira bastante ágil, com grandes saltos temporais entre os capítulos. Enquanto no primeiro volume conhecemos Ann aos 12 anos, no volume 6 já estamos na fase em que ela tem 18 anos, onde muitos acontecimentos se desenrolaram. Essa escolha da autora, além de ser bastante eficaz e objetiva, evidencia um planejamento narrativo excepcional. No início do primeiro capítulo, encontramos uma personagem com 26 anos, e à medida que avançamos na obra, percebemos como a trama é elaborada para nos conduzir até essa personagem apresentada inicialmente, revelando um progresso gradual.



Além disso, os personagens são o verdadeiro destaque da história. Extremamente verossímeis e humanos, sem recorrer ao melodrama excessivo, todos os personagens, desde os principais até os coadjuvantes (a avó de Ann, por exemplo, é apresentada de tal forma que parece alguém que já conhecemos há muito tempo), possuem personalidades bem construídas e desenvolvidas ao longo da obra. Podemos observar, por exemplo, como os eventos da vida refletem na formação da personalidade de Ann durante a narrativa, desde suas alegrias até suas tristezas.



Inclusivo, como tudo relacionado ao tema "amor", a narrativa é permeada por uma profunda melancolia. A leitura avança com um aperto no peito, enquanto o leitor torce incessantemente para que a vida dos personagens que vem a admirar tenha um desfecho feliz. Essa conexão provavelmente surge da nossa facilidade em nos ver refletidos nas experiências deles, já que a autora aborda diversas formas e nuances do amor ao longo da obra, tornando quase impossível que não tenhamos vivenciado alguma dessas situações. Amor à distância, amor não correspondido, amor platônico, a transição de amizade para amor, a perda de um amor... qualquer jovem que já se apaixonou certamente passou por um desses momentos; é essa representação tão autenticidade das experiências humanas que dá à obra uma relevância crescente.

O estilo da autora, embora não seja extraordinário, possui uma beleza marcante. Os personagens têm características visuais bem definidas e peculiares. No entanto, é na composição das imagens que acompanham toda a obra que a autora realmente se destaca. Junto à ampulheta, várias fotografias capturadas pelos personagens ao longo da trama destacam os momentos significativos da história; e essas fotografias são desenhadas pela autora com a leveza e o peso que fotos outrora possuíam. De fato, acho incrível o contraste que a autora estabelece entre a ampulheta, que simboliza o tempo incessante e suas voltas contínuas, e as fotos, que servem como registros de momentos únicos e irrepetíveis na vida. A mesma melancolia e saudade que os personagens experimentam ao rever as fotos do passado também nos afeta, pois, de fato, compartilhamos esses instantes com eles e lamentamos os caminhos que a vida toma.



• Nome: Sunadokei

• Nomes alternativos: 砂時計

• Tipo: Mangá 

• Autor(a): Hinako Ashihara

• Volumes: 10

• Status: Completo

• Demográfico: Shoujo

•Gêneros: Premiados,Romance,Comédia,Drama

• Editora: Panini 

• Publicado em: 2008














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